Verifico com muito agrado que as preocupações que demonstrei, ao longo dos meus últimos artigos, são coincidentes com algumas das manifestadas pelas autoridades governamentais, nomeadamente, ao nível do Ministério da Educação.

Nas últimas semanas, também as televisões, algumas com pasmo meu, em horário nobre, trouxeram a lume a discussão sobre o tema. Uma discussão ainda muito impregnada dos velhos paradigmas, na qual, reitores e profissionais do ensino superior e do secundário dirimiram argumentos a meu ver ainda muito enquistados numa cultura do passado que urge mudar.

Todavia, começo a ter esperança quando vejo publicados artigos sobre declarações de intenções de altos responsáveis educativos

Transcrevo

– “Foram muitos anos [a trabalhar] sobre um paradigma e as escolas vão ter de mudar de `chip`. É outra forma de trabalhar. Esta educação inclusiva abrange qualquer aluno da escola, não têm de ser miúdos com dificuldades de aprendizagem. Qualquer aluno está no âmbito da educação inclusiva, que não é uma área só da educação especial, mas de todos os professores”, disse à Lusa Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP). A principal mudança que o diploma impõe é “de mentalidades”, ao trazer os alunos com necessidades educativas especiais mais para o contexto de sala de aula, “junto dos seus pares”, mas também por olhar mais para os alunos nas franjas, e não só para o aluno médio.

“A escola pública deverá fazer mais pelos alunos que reúnem qualidades excecionais de aprendizagem, que querem muito mais do que aquilo que se ensina na escola. Este diploma prevê isso e as escolas têm de estar preparadas para alunos acima da média. As escolas devem ser obrigadas a inclui-los, porque para muitos deles a escola pode ser `uma seca`. Estes alunos têm de ser espicaçados e motivados. Neste diploma há também a preocupação de trabalhar com estes alunos com os quais, nós, na escola pública normalmente não temos tanto cuidado. Trabalhamos mais com o aluno médio”, disse.

Não posso deixar de referir alguns factos da atualidade que talvez possam ajudar a continuar a quebrar paradigmas.

Paradigma 1: Bom e dignificante é ingressar no ensino secundário, pela via que tem o pomposo nome de Cursos Científico-Humanísticos. Ensino profissional? Só se for obrigado!!!

O nome do tipo de ensino, “profissional” e a forma como ele é descrito, desanima qualquer um que não conheça a realidade de forma um pouco mais esclarecida.

Quase todos os pais estão convencidos que os filhos, ao enveredarem pelo ensino profissional, não têm os mesmos direitos de acesso ao ensino superior que aqueles que enveredam por outras vias. Não devemos esquecer que, uma larga maioria deles estão legitimamente convencidos que os seus filhos são inteligentes, logo, com capacidades para virem a ser engenheiros, doutores ou cientistas…

Os que tenham dúvidas na escolha, ficam ainda com maiores dúvidas se consultarem fontes públicas que cito seguidamente:

Os cursos científico-humanísticos constituem uma oferta educativa vocacionada para o prosseguimento de estudos de nível superior. Destinam-se a alunos que tenham concluído o 9.º ano de escolaridade ou equivalente.

Têm a duração de 3 anos letivos, correspondentes aos 10.º, 11.º e 12.º anos de escolaridade, e conferem um diploma de conclusão do Ensino Secundário (12º ano).

Os Cursos Profissionais, caracterizados por uma forte ligação com o mundo profissional, constituem uma oferta educativa vocacionada para o desenvolvimento de competências para o exercício de uma profissão, em articulação com o setor empresarial local.

São habitualmente apontados como mais apropriados para estudantes que procurem um ensino mais prático e voltado para o mercado de trabalho, não excluindo, por outro lado, a hipótese do prosseguimento de estudos.”

Não oferece qualquer tipo de dúvida que os cursos cientifico-humanísticos são apresentados com maior pompa e circunstância. Perante esta descrição, à partida, poucos serão os pais que se revêm na possibilidade de enviar os seus filhos para os cursos profissionais.

Que são apresentados, logo à partida, como formação de “segunda categoria”.

O resultado:

As empresas, instituições que garantem a riqueza do país e a sua sustentabilidade e que empregam profissionais, desesperam à espera que este enfadonho paradigma mude.

Entretanto, o país perde competitividade e sustentabilidade.

Os ex-alunos que, depois da escolaridade obrigatória, chegam às organizações, estão insuficientemente preparados, faltando-lhes conhecimento concreto e prática sobre uma qualquer profissão de cariz mais específico. Esta lacuna traduz-se num real e significativo custo para os empresários que são obrigados a realizar todo um trabalho que deveria ter acontecido durante a escolaridade obrigatória, num sistema de ensino que se necessita estruturado, emancipado de conceitos desadequados da realidade e voltados para o passado, ou seja, um sistema de ensino inovador…

Continua…

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